O interesse por produtos da comunicação de massa sempre esteve presente no trabalho do pesquisador Felipe Polydoro, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Suas pesquisas mais recentes, entretanto, investigam as maneiras como esses produtos incorporaram uma certa linguagem de amadorismo para criar efeitos de real. No contexto da exposição “50 Anos de Realismo – Do Fotorrealismo à Realidade Virtual”, então em cartaz no CCBB DF, ele foi convidado a conduzir o curso Transversalidades do Programa CCBB Educativo – Arte & Educação. Ao longo do encontro, apresentou ao público alguns dos resultados de suas análises com base em exemplos recolhidos na internet.

“Minha pesquisa mais recente é sobre imagens amadoras, mas cheguei nelas exatamente pelo interesse no uso do estilo realista nas imagens produzidas pela mídia contemporânea. A partir da década de 1990, no cinema e na televisão, percebe-se uma busca por renovar as linguagens realistas”, explica. “A exemplo disso, temos o surgimento dos reality shows, que têm como suposta premissa colocar a realidade na televisão, como foi o caso do Big Brother Brasil. Atualmente entendido como um jogo, no início o programa apostava no apelo da realidade.”

Segundo ele, esse primeiro movimento dá origem a uma segunda fase no processo de aproximação do real por produtos da mídia de massa, caracterizada pela incorporação de imagens amadoras em produtos audiovisuais. Como pioneiro exemplo desse processo, é apontado o filme “Bruxa de Blair” (1999), cuja estética imita um documentário, e o sucesso popularizou o subgênero cinematográfico found footage.

“Ao produzir essa impressão de imagem caseira, o filme vai provocar uma outra sensação no público, que daquela provocada pela linguagem hollywoodiana, colorida, bem enquadrada. A textura das imagens, de certa forma, coloca os espectadores dentro do filme, como se estivessem diante de imagens feitas por eles próprios. Além de se aproximar do espectador, isso cria um efeito efeito que condiz com a realidade, o que torna as coisas mais perturbadoras nesses filmes de terror”, comenta.

Entre os diversos tipos de imagens que lhe despertam interesse, Felipe Polydoro destaca as que circulam no YouTube e no Vimeo, plataformas que “permitem a circulação direta de imagens de pessoas comuns”. Para ele, isso corresponde a um fenômeno avassalador no contexto da cultura visual contemporânea. A partir desses espaços virtuais, o pesquisador se debruçou sobre um material audiovisual bastante específico: imagens de flagrantes. “São imagens que flagram situações decisivas e que têm a característica de nos colocar dentro da cena, de ter o efeito de não ser mediada, mas também mostrar diretamente um acontecimento relevante de acordo com os critérios jornalísticos”, explica.

Abaixo, você encontra dois exemplos de imagens reproduzidas por Felipe Polydoro durante o curso e as análises levantadas:

Assassinato de John F. Keneddy (1963)

“Naquele dia de 1963, o cinegrafista amador Abraham Zapruder filmava a visita do presidente norte-americano John F. Kennedy a Dallas, quando acabou captando o momento do assassinato. O vídeo reúne todas as características de imagem amadora que reforçam o realismo e, apesar de ter sido filmado em 1963, esse filme só passou na TV americana em 1965. Antes disso, ele circulou pelas escolas de cinema daquele período e, portanto, existe um entendimento de que ele exerceu uma grande influência em um movimento chamado ‘A Nova Hollywood’”.

“É interessante frisar que, apesar de termos o fato se desenrolando na nossa frente, esse vídeo não ajuda em nada a elucidar o que aconteceu. Até hoje os americanos consideram que esse fato não está devidamente elucidado. Ao mesmo tempo, é interessante a força desta imagem como um documento desse acontecimento, e como ela não ajuda a elucidar o que aconteceu. A força dessa imagem e, ao mesmo tempo, a incapacidade de nos dizer o que aconteceu é o que de certa forma fica incitando esse retorno eterno para a questão de quem matou o Kennedy. O mistério que uma imagem que nos coloca diante do fato acaba gerando. Mas também mostra a limitação da imagem como documento.”

Atentado de 11 de setembro (2001)

“Naquele dia de 1963, o cinegrafista amador Abraham Zapruder filmava a visita do presidente norte-americano John F. Kennedy a Dallas, quando acabou captando o momento do assassinato. O vídeo reúne todas as características de imagem amadora que reforçam o realismo e, apesar de ter sido filmado em 1963, esse filme só passou na TV americana em 1965. Antes disso, ele circulou pelas escolas de cinema daquele período e, portanto, existe um entendimento de que ele exerceu uma grande influência em um movimento chamado ‘A Nova Hollywood’”.

“É interessante frisar que, apesar de termos o fato se desenrolando na nossa frente, esse vídeo não ajuda em nada a elucidar o que aconteceu. Até hoje os americanos consideram que esse fato não está devidamente elucidado. Ao mesmo tempo, é interessante a força desta imagem como um documento desse acontecimento, e como ela não ajuda a elucidar o que aconteceu. A força dessa imagem e, ao mesmo tempo, a incapacidade de nos dizer o que aconteceu é o que de certa forma fica incitando esse retorno eterno para a questão de quem matou o Kennedy. O mistério que uma imagem que nos coloca diante do fato acaba gerando. Mas também mostra a limitação da imagem como documento.”

 

Atentado de 11 de setembro (2001)

“O vídeo que capta esse grande acontecimento do mundo contemporâneo é significativo do ponto de vista dos estudos da imagem porque talvez seja um dos primeiros casos em que se tenha uma grande quantidade de registros amadores. Isso mostra como uma cidade como Nova York, já no início dos anos 2000, estava sendo filmada o tempo todo, o que denota não só uma sociedade da imagem, mas uma sociedade em que as pessoas gostam de ver as imagens, o que a faz estar em constante vigilância.”

“A imagem em questão foi produzida por um documentarista que estava gravando um documentário sobre o trabalho dos bombeiros de Nova York. Ele estava ali, em um momento de intervalo das filmagens, com a câmera ligada, quando foi surpreendido por um barulho alto e teve a habilidade de enquadrar rapidamente o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, é uma imagem que traz o efeito de surpresa, de imprevisto, que é muito forte. Trata-se de uma imagem irrepetível. Esse caso é bastante curioso porque, como se trata de um acontecimento que surpreendeu a todo o mundo, demonstra o quanto o cinegrafista não tinha nenhuma influência no que está registrado.”

“Então, se a televisão e o cinema vão se tornando cada vez mais um território de manipulação, com efeitos cada vez mais sofisticados, o caso da imagem que capta o primeiro avião batendo no World Trade Center é uma excepcionalidade que desvia da sociedade manipulada. E esse é um efeito realista muito forte.”